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processo de criação -- ignorância



Somos todos ignorantes, sobre isso não há dúvida. Todos os dias quando acordamos, antes mesmo de abrirmos os olhos, lá está ela, ao nosso lado. Crescemos e nos movimentamos pelo mundo em companhia dela. Nos envolvemos com outros seres, olhamos e somos olhados sempre a partir dela: nossa turva e espessa ignorância.

Esta palavra se fez presente para nós desde os primeiros ensaios e, aos poucos, fomos nos organizando e nos posicionando à sua volta. Nossos confrontos diários na sala de ensaio nos revelavam imagens, nos propunham estados e nos traçavam fronteiras a serem transpostas. Foram noites quentes, em todos os sentidos. Pela primeira vez, criamos um espetáculo em poucos meses, logo nós, acostumados a longos processos de criação coletiva. Decidimos não mirar tanto antes de atirar e descobrimos que o alvo não estava à nossa frente, mas dentro. Tivemos o privilégio de contar com novos olhares externos e de confiar no trabalho de parceiros inéditos. Estivemos mais expostos, mais vulneráveis, incertos, abertos. Nos desafiamos também: agora dois em cena e dois no olhar de fora. Uma maneira de reconstruirmos nossa arquitetura.

Ignorância, para além de um espetáculo, foi um percurso iniciado no chão, no solo duro onde os primeiros homens se sentavam. E então encontramos as cadeiras, essa tecnologia milenar fabricada para sustentar o nosso peso, como se não pudéssemos sustentá-lo sozinhos. Esquecemos o início de tudo. Ignoramos o passado, o presente, o futuro. E a humanidade segue. Rindo e chorando da sua própria ignorância.



Pela primeira vez o grupo se dividiu em atuação (Italo Laureano e Rejane Faria) e direção/dramaturgia (Marcos Coletta e Assis Benevenuto), como uma maneira de encontrar novas formas de trabalho e criação dentro de um grupo que pratica a criação coletiva e a dramaturgia autoral há oito anos. Porém, mesmo com a divisão de funções, o processo de Ignorância se revelou tão coletivo quanto os anteriores, confirmando a solidez e a coerência de uma linha de pesquisa artística desenvolvida ao longo de anos.

O discurso de Ignorância se propõe político, mas poroso, e evita os discursos prontos e as verdades unívocas ao abordar o estado da ignorância por diferentes ângulos e matizes. Os atores tecem cinco breves situações conectadas por um jogo com trinta cadeiras espalhadas pelo palco.  As cenas, ora ironicamente cômicas, ora dramáticas expõem contrastes frente à ignorância humana e nossa obsessão pelo progresso civilizatório.


A equipe de Ignorância traz artistas que trabalham pela primeira vez com o grupo, como o iluminador Rodrigo Marçal, a bailarina Rosa Antuña, a pesquisadora vocal Ana Hadad, a figurinista Lira Ribas e o produtor musical Barulhista. O grupo também repete parcerias, como o cenógrafo Ed Andrade, agora com o reforço de Cristiano Cezarino, e os designers Filipe Costa e João Emediato, da Lampejo. Em cinco meses, o grupo concebeu o texto e a encenação deste espetáculo, sendo a criação mais rápida realizada pelo Quatroloscinco. O processo também incluiu uma série de ensaios abertos para convidados como o dramaturgo Vinícius Souza, a diretora Sara Rojo, o ator Paulo André e o diretor Eid Ribeiro, entre outros.

+ Leia o texto de Barulhista sobre a criação da trilha sonora de "Ignorância".

O Quatroloscinco estreia pela quarta vez consecutiva na Funarte MG, estreitando ainda mais a sua relação afetiva com este espaço. Após a estreia, o grupo vai a João Pessoa (PB) realizar uma mostra de todo o seu repertório e depois retorna ao cartaz no Teatro João Ceschiatti – Palácio das Artes, em novembro.

Ignorância foi construído sem qualquer patrocínio ou edital de fomento, o que não é novidade para o grupo, já acostumado a produzir de forma independente, sem o amparo dos meios institucionalizados.

Equipe de Criação
Texto e Direção: Marcos Coletta e Assis Benevenuto
Atuação: Rejane Faria e Italo Laureano
Orientação Vocal: Ana Hadad
Orientação Corporal: Rosa Antuña
Cenografia: Eduardo Andrade e Cristiano Cezarino
Figurino: Lira Ribas
Iluminação: Rodrigo Marçal
Trilha Sonora Original: Barulhista
Observadores de criação: Eid Ribeiro, Graziella Medrado, Paulo André, Sara Rojo e Vinícius Souza
Projeto Gráfico: Filipe Costa e JM Emediato - Lampejo
Fotografia de Divulgação: Felipe Messias
Fotografia de Cena: Guto Muniz - Foco in Cena
Assessoria de Imprensa: V5 Agência de Comunicação
Video: Janaína Patrocínio - JPZ Comunicação
Produção: Maria Mourão
Realização: Quatroloscinco - Teatro do Comum

Foto: Felipe Messias